(continuação)
Nacionalização e secularização
Logo após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, a Santa Casa sofreu a interferência de correntes políticas de cariz anticlerical e laicizante. Acabou por ser espoliada, em favor do sector público, de parte considerável do seu património plurissecular. A igreja foi cedida, sem muitas resistências da irmandade, à Câmara Municipal. Passou então a servir de arrecadação e de oficina de carpintaria e pintura, o que levaria à dispersão ou mesmo à destruição de parte muito considerável do seu acervo. O processo de degradação agravou-se com a construção, em 1927, de um depósito de água para abastecimento da cidade nas coberturas do edifício, o que causou a compressão vertical dos muros e deu azo a infiltrações fatais para os retábulos e as pinturas parietais.
Movendo influências de diversa ordem, um erudito bejense, o Dr. Diogo de Castro e Brito, respeitado pelo trabalho de salvaguarda do património histórico-artístico, conseguiu promover a classificação da igreja como Monumento Nacional, salvando-a de novos perigos. Ficou também a dever-se muito ao seu esforço que a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais levasse a cabo, em 1941-1946, uma profunda intervenção de restauro, incluindo o desentaipamento das arcadas e outras obras de reintegração estilística, de acordo com as orientações vigentes na época. O resultado, polémico, minimizou o carácter religioso do edifício e a configuração que ele apresentara durante mais de quatro séculos, devolvendo-o quase ao estado original. Para atenuar o choque, seguiram-se novas campanhas de obras em 1951-1956. Fez parte delas a remontagem do altar da capela-mor, que abrangeu, entre peças dos altares da igreja e de outros edifícios, alguns elementos do retábulo da capela do Santíssimo Sacramento da sé de Silves. Outros altares de talha do próprio monumento vieram a ser total ou parcialmente recuperados e instalados na igreja do antigo convento de Santo António, de Beja, por iniciativa do bispo D. José do Patrocínio Dias.
Artigo publicado no jornal Notícias de Beja, nº 4115 de 30/06/2011
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