quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A Sabedoria dos Cemitérios

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Um homem foi ter com Macário, o Egípcio, e pediu-lhe um conselho profundo.
- Vai ao cemitério – disse-lhe Macário – e insulta os mortos.
O homem entrou num cemitério, injuriou demoradamente os mortos e atirou pedras aos túmulos. Depois voltou para junto de Macário e contou-lhe o que tinha feito.
- Os mortos disseram-te alguma coisa? - perguntou Macário.
- Não.
- Volta ao cemitério e diz-lhes louvores.
O homem voltou ao cemitério e apresentou os seus cumprimentos aos mortos. Chamou-lhes íntegros, inteligentes e bondosos. Louvou a sua beleza e admirou a sua glória.
Depois foi ter com Macário, que lhe disse:
- Eles disseram-te alguma coisa?
- Não.
- Pois bem, aqui tens o meu conselho. Deixa o desprezo e a lisonja. Sê como um morto
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Jean-Claude Carrière in “Tertúlia de Mentirosos

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Se conduzir, Beba!

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Não, não perdi o juízo. Não recomendo, aliás desaconselho, o consumo de bebidas alcoólicas em qualquer circunstância.
O título deste meu post vem a prepósito de um outro publicado aqui. Este blog – Direito Em Um Só Lugar – é da responsabilidade de, julgo eu, um jurista/advogado brasileiro.
No post em referência afirma-se que o Supremo Tribunal de Justiça (brasileiro) recusou, por diversas vezes, o pedido de habeas corpus interposto por motoristas no sentido de não serem obrigados a fazer o teste de alcoolemia.
E porquê?
Porque – dizem eles – a lei que os obriga a soprar o balão ou fazer análise sanguínea é inconstitucional! E suportam essa inconstitucionalidade no facto de “ninguém é obrigado a produzir prova contra si mesmo”.
Nunca tinha olhado para este caso por este prisma.
Fiquei perplexa, confesso. Não sou advogada nem juíza – e se calhar por isso – esta notícia baralhou-me as ideias.
Não sei se em Portugal alguém já ousou questionar a justiça com base neste argumento. Nem sei se a lei portuguesa e a nossa Constituição possam permitir este tipo de argumento.
Seja como for, fiquei admirada pelo brilhantismo deste argumento.
No entanto, e que fique bem claro, se conduzir Não beba!

Esta Noite em Samarcanda

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Uma manhã, o califa de uma grande cidade viu chegar o seu primeiro vizir num estado de grande agitação. Perguntou as razões desta aparente inquietação e o vizir disse-lhe:
- Suplico-te, deixa-me sair desta cidade ainda hoje.
- Porquê?
- Esta manhã, ao atravessar a praça para vir ao palácio, senti que me batiam no ombro. Voltei-me e vi a morte que me olhava fixamente.
- A morte?
- Sim, a morte. Reconheci-a logo, toda vestida de negro com um xaile vermelho. Está cá e olhou para mim para me meter medo. Procura-me, tenho a certeza. Deixa-me sair da cidade neste mesmo instante. Levo o meu melhor cavalo e posso chegar esta noite a Samarcanda.
- Seria mesmo a morte? Tens a certeza?

- Absoluta. Vi-a como te vejo a ti. Tenho a certeza de que tu és tu e tenho a certeza que ela era ela. Deixa-me partir, peço-te.
O califa, que tinha afecto pelo seu vizir, deixou-o partir. O homem voltou a sua casa, selou o melhor dos seus cavalos e transpôs a galope uma das portas da cidade, em direcção a Samarcanda.
Um pouco mais tarde, o califa, atormentado por um pensamento secreto, decidiu disfarçar-se, como por vezes fazia, e sair do seu palácio. Sozinho, dirigiu-se à grande praça. No meio dos ruídos do mercado, procurou a morte com o olhar e avistou-a, reconheceu-a. O vizir não se tinha enganado. Tratava-se realmente da morte, alta e magra, de negro vestida, o rosto meio dissimulado sob um xaile de algodão vermelho. Ia de um grupo para outro, no mercado, sem que dessem por ela, aflorando com um dedo o ombro do homem que montava a sua tenda, tocando no braço de uma mulher carregada de hortelã, evitando uma criança que corria para ela.
O califa dirigiu-se à morte. Esta reconheceu-o imediatamente, apesar do disfarce, e inclinou-se em sinal de respeito.
- Tenho uma pergunta a fazer-te – disse-lhe o califa, em voz baixa.
- Escuto.
- O meu primeiro vizir é um homem ainda novo, de boa saúde, eficaz e provavelmente honesto. Porque é que esta manhã, quando ele vinha para o palácio, lhe tocaste e o assustaste? Porque o olhaste com um ar ameaçador?
A morte pareceu ligeiramente surpresa e respondeu ao califa:
- Não queria assustá-lo. Não o olhei com ar ameaçador. Simplesmente, quando chocámos por acaso na multidão e o reconheci, não pude esconder o meu espanto, o que ele deve ter tomado por ameaça.
- Espanto porquê? - perguntou o califa.
- Porque – respondeu a morte – não esperava vê-lo aqui. Tenho um encontro com ele esta noite, em Samarcanda.
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Jean-Claude Carrière in “Tertúlia de Mentirosos

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

O Melhor da Semana 39

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Termina hoje O Melhor da Semana.
Por motivos de ordem profissional é-nos impossível (a mim e à Drª Deolinda) manter esta rubrica sem ajudas.
O esforço é considerável. Analisar semanalmente mais de 500 (quinhentos) posts para escolher o melhor requer da nossa parte um esforço e uma dedicação temporal que se tornou incompatível com os nossos afazeres profissionais e pessoais.
Em suma, não temos tempo. Lamentamos. Mas não desistimos!
Passaremos a eleger não O Melhor da Semana, mas O Melhor do Mês! A começar já no próximo mês de Outubro, inclusive.
No entanto, assim que estiverem reunidas condições, retomaremos a publicação de O Melhor da Semana.
Quero, em meu nome pessoal e da Drª Deolinda, apresentar as nossas desculpas por esta alteração.


Para a semana que passou, semana 39 e última do mês de Setembro, elegemos o post com o título de “The Champ” publicado no passado dia 24 aqui. (O post não é lincável por opção do editor do blog).
Aborda um tema que nos deveria fazer reflectir. A todos nós.
A imagem comove-me profundamente.
Todos nós temos uma vida demasiado curta. Valerá a pena isto?!
Eis o post:



The Champ


Quando vi esta foto recordei O Campeão, possivelmente o único filme em que as lágrimas me rolaram pela face. Sei que a "história" não era grande coisa (tanto que só recordo passagens) mas a cena final esburacou-me a couraça: o discurso de despedida de um miúdo lavado em lágrimas agarrado ao cadáver do pai, o seu Champ, falecido após combate de boxe. Bom seria que me tivessem poupado e não publicassem esta foto, não por me ter trazido à memória O Campeão e a cena a que fiz alusão, afinal é ficção, mas para não sentir revolta por ver um miúdo órfão em pranto junto à urna do pai que é cadáver por culpa de mais uma guerra que só envolve interesses económicos e políticos de países que até estão geograficamente a léguas e léguas do local onde foi montado o teatro de guerra. Dizem-nos que é em prol da Paz, que é para combater o terrorismo, mas haverá maior terror do que este que servem às suas próprias crianças? Pelo menos, em acto de contrição, poupem-nas e resguardem-nas desta exposição mediática que só tem por objectivo manipular a mente de quem vê para que tome o partido que lhes interessa, o deles.

domingo, 27 de setembro de 2009

Parabéns Portugal!!


Finalmente a alegria chegou a Portugal!
Apesar de alguns cépticos já não acreditarem, hoje houve uma notícia que lhes encheu o coração de alegria!
Já temos o “nosso” morto.
Hoje morreu o primeiro português – e em Portugal – vítima da gripe suína. Em “on” e à família da vítima apresentam-se as mais sentidas condolências; Em “off” e em casa (com ou sem amigos) festeja-se. Provavelmente muito champanhe foi derramado.
Portugal finalmente juntou-se aos países ricos em H1N1.
Provavelmente houve portugueses que receberam dos seus amigos Reis, Presidentes, Ministros e Directores de Farmacêuticas de um pouco por todo o mundo, um telefonema, um telegrama ou um simples SMS com a frase “Porreiro, pá! Já fazem parte do nosso Mundo.
Há horas felizes, diz o cauteleiro. A hora feliz dos profetas da desgraça, chegou.
Eu compreendo que os impérios não se constroem por obra e graça do Divino Espírito Santo.
Mas há quem diga: “Deus não dorme!” e outros “Quem semeia ventos não colhe ventoinhas”.

Só espero que se faça Justiça. Divina ou não.

sábado, 26 de setembro de 2009

Jovens Bombistas

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O Expresso online publica hoje uma notícia que me apanhou completamente de surpresa.
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“Cada vez mais, os jovens usam drogas recreativas na noite. A mistura de ecstasy e viagra já é banal.”
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Estes loucos são autenticas bombas ao retardador. Os malefícios que este cocktail provoca num futuro próximo são irreversíveis e nalguns casos fatais.
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Quando se é jovem, experimentar coisas novas, especialmente em grupo, é uma tentação enorme.
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Mas ser jovem não é sinónimo de ser burro.
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Quem faz cocktails destes é burro. É um burro suicida.
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Fazer roleta russa pode dar gozo … se bala não se encontrar na câmara.
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Neste cocktail a bala está sempre na câmara.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A Segurança Pública do CDS-PP

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Em Moura, dois candidatos ao Município de Moura nas lista do CDS-PP foram apanhados em flagrante pela GNR a furtar fardos de palha. Segundo o Comandante da GNR de Beja, Major José Candeias, quando a GNR surpreendeu os dois candidatos do CDS já estes tinham na viatura com que praticavam o furto cerca de 50 fardos de palha.
Sílvia Ramos, presidente da distrital do CDS-PP, quando confrontada com estes factos e se os candidatos envolvidos no furto iriam ser substituídos, afirmou categoricamente que NÃO! E adiantou que: “meia dúzia de fardos de palha nada representam comparados com os casos 'Freeport, Felgueiras e Apito Dourado'”.
Espantoso!
Fico maravilhada com a noção de segurança pública que Sílvia Ramos defende e que Paulo Portas tanto apregoa.
Vá lá que os candidatos do CDS andavam a roubar palha.
Suponhamos que eles tinham sido apanhados a violar uma criança?
Será que diriam: “O que é isso comparado com o caso Casa Pia …”?

Um Sonho Húmido

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Um homem toda a sua vida só pensava em dinheiro, só rezava para obter dinheiro.

Num dia de inverno, de regresso do Templo, viu um grande porta-moedas metido no gelo do caminho.

Pensando que as suas preces tinham finalmente sido atendidas, tentou apoderar-se do porta-moedas, sem sucesso. Preso no gelo, o objecto resistia.

Então o homem urinou sobre o porta-moedas para fundir o gelo.

E acordou na cama todo molhado ...

Jean-Claude Carrière in “Tertúlia de Mentirosos

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O Sonho da Borboleta

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Um homem sonha que é uma borboleta.
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Revoluteia com leveza de flor em flor, abrindo e fechando as suas asas, sem a mais ténue lembrança da sua natureza humana.
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Quando acorda, percebe com espanto que é um homem.
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Mas será ele um homem que acaba de sonhar que era uma borboleta?
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Ou será uma borboleta a sonhar que é um homem?
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Diz-se que nunca conseguiu responder a esta pergunta.
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Jean-Claude Carrière in “Tertúlia de Mentirosos

O Sino - Boletim Paroquial de Quintos

Acabaram-se as férias.
É tempo de deitar mãos à obra, ou seja, é tempo de O SINO - o Boletim da nossa paróquia.
Este mês, Setembro, escolhemos este pequeno texto - de reflexão! - que vem na primeira página do nosso Boletim:


Recomeçar

Iniciámos em Setembro um novo Ano Paroquial, que confiamos à protecção de Nossa Senhora dos Remédios.
Pastoralmente falando, gostaríamos que os cristãos de Quintos vivessem mais a fé, participando com assiduidade nas celebrações do Domingo, sem o que a vida cristã nunca é completa nem faz sentido.
O serviço pastoral numa paróquia não pode ser apenas restringido aos funerais e, nalguns anos, a procissões …
No final deste ano de 2009/2010, não gostaríamos de fazer um balanço negativo da actividade paroquial, numa aldeia que se diz católica, como aconteceu no ano que findou.